terça-feira, 13 de outubro de 2009

Sombras, todos temos

Sabe quando você se sente um Raskólnikov, de Crime e Castigo? Não que você venha planejando assassinar uma velha, ou que você se sinta na condição de homens especiais que tudo podem e a quem a lei não se aplica. Não que você seja carrancudo, desconfiado, calculista ou impulsivo... Não que você tenha sérios distúrbios de personalidade... E, pensando bem, tudo isso SIM. Porque no fundo, você planeja provar para si e para os outros que você é melhor que eles de alguma forma, e você gasta muita energia - consciente ou inconsciente, se é que eu posso me expressar assim - para arquitetar essas provas. E você acha, sim, que está em uma condição diferente dos outros. Lá no fundo, em alguma parte, você não acredita mesmo?

Os discursos são vários! Exemplos: "Ah, tudo bem que eu não consigo me dar bem com os meus irmãos, mas pelo menos eu consigo me virar muito bem com as meninas, tenho um charme especial que nenhuma resiste"; "Tudo bem, eu não fui mesmo bem naquela prova na qual você tirou 10. Mas pelo menos eu tirei mais que você em todas as outras..."; "Ele disse que eu sou impaciente. Posso ser mesmo, mas pelo menos eu não fico dependendo da boa-vontade das pessoas, igual a ele e a todo mundo", e por aí vai...
Além de vivermos tentando provar para nós mesmos que somos bons, ainda queremos a todo o custo provar aos outros que somos ótimos. Por isso não se espante quando ouvir que, na verdade, o tímido é orgulhoso e o autoritário é inseguro.

Somos, em grande maioria, carrancudos. Ok, você é calmo. Então me diz que você não sai do sério (por dentro ou por fora) quando alguém joga na sua cara os seus defeitos, lembra das coisas nas quais você tem muita dificuldade mas nunca admite.
Ok, você também não é desconfiado... Então aquele moço, com um sorriso lindo, te faz um elogio, ou aquela menina linda te cumprimenta. Você não vê segundas intenções, não é? Não pensa nas possibilidades por trás do ato, não é?

Ok, você também não é calculista, ou impulsivo! Então você não planeja umas boas palavras pra conseguir exatamente aquilo que quer da atendente do banco, dos seus pais, ou do(a) seu(sua) namorado(a). Não... Você não diz umas poucas e boas porque encostaram na sua ferida, ou não tem um gesto brusco quando acha que foi desrespeitado, não é?

É engraçado, o Raskólnikov parece uma personificação um pouco acentuada das dificuldades humanas. Eu me assustava constantemente lendo o livro, porque conseguia reconhecer traços meus nele. Isso porque a personagem é universal... Somos todos muito frágeis, com um ego muito grande. Temos muito pouco de humildade, amor e compaixão verdadeiros. Temos muita mágoa, muita insegurança, muita necessidade de aprovação. Temos medo da opinião alheia, de nos tornarmos "mais um", do abandono e do esquecimento, das falhas. Aí dizemos que somos muito evoluídos, muito diferentes, muito isso e muito aquilo. Mas quando vem um vento forte, uma revisão da lição, aí não tiramos mais que 5. Esquecemos de que é preciso compaixão ao conhecer o nosso interior, é preciso a mesma para analisar o do próximo. É preciso viver a vida de forma a aprender constantemente, sem ter medo da opinião das pessoas e da nossa. É preciso ter paciência com nossas dificuldades e com as alheias. É preciso admitir que temos sombras, e procurar conhecê-las. É preciso saber que não podemos ser ótimos em tudo - como disse hoje a minha maravilhosa professora de Geografia, Ziza - mas que com certeza temos potencial e podemos desenvolvê-lo. Podemos crescer.

Eu adoraria estar praticando, em tempo integral, o que já sei que deveria. Mas há alguns dias, como hoje, quando o Raskólnikov quase toma conta, e então o pensamento fica difuso, a razão perde campo, e a angústia se justifica de mil e uma maneiras. Eu queria mesmo ser boazinha comigo mesma e com todo mundo, queria ser mais paciente comigo mesma e com todo mundo, queria ser humilde, queria ser compreensiva, queria ser equilibrada. Um dia eu chego lá. Por enquanto, procuro a Luz escrevendo e admitindo pra mim mesma que minhas sombras são enormes, e por vezes tomam conta de mim.

2 comentários:

Karina disse...

Essa é a Cibele que eu sempre esperei por aqui.
Suas sombras te renderam o melhor texto que você já escreveu.
Parabéns, amor.
Além de tudo, você está coberta de razão e me ajudou.

Orgulho de você!

Jennifer disse...

Concordo com a Ká, seu melhor post Ci. Amei!

E sim, vc está coberta de razão e no caminho certo. Pra mudarmos temos que admitir primeiro o que há de errado, o que fazemos não só para os outros mas para nós mesmos.