quinta-feira, 29 de outubro de 2009

A música

Espantei-me ontem enquanto lia uma apostila do Simbolismo. Depois de estudar o Parnasianismo, qualquer coisa parece legal mesmo, mas não de um modo tão diferente.

Os simbolistas, seguindo a tendência anti-materialista do final do século XIX e tendo influências da filosofia de Schopenhauer e Kierkegaard, buscavam a essência humana. Esta, além dos limites da razão, profunda e interior, se mostra àqueles que rompem com os laços da medíocre racionalidade e deixam-se arrebatar pela beleza do sentimento puro.
Achei tudo isso tão impressionante, tão perto de mim, tão rico! E não é? Não temos que vencer os limites da razão e mergulhar na profundidade do "Eu"?

Eis aí uma ótima forma de experimentar sensações "irracionais": As Quatro Estações - Antônio Vivaldi. E para enaltecer a música, A Música, de Beaudelaire:

A música p'ra mim tem seduções de oceano!
Quantas vezes procuro navegar,
Sobre um dorso brumoso, a vela a todo o pano,
Minha pálida estrela a demandar!

O peito saliente, os pulmões distendidos
Como o rijo velame d'um navio,
Intento desvendar os reinos escondidos
Sob o manto da noite escuro e frio;

Sinto vibrar em mim todas as comoções
D'um navio que sulca o vasto mar;
Chuvas temporais, ciclones, convulsões

Conseguem a minh'alma acalentar.
— Mas quando reina a paz, quando a bonança impera,
Que desespero horrivel me exaspera!

Charles Baudelaire, em "As Flores do Mal"

Tradução de Delfim Guimarães

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